Domingo, 20 de Agosto de 2017

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Lucia Rincon: Não, a culpa não é nossa

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mulher aflita

Mais uma estatística escancara à sociedade a violência e a opressão a que nós mulheres estamos submetidas cotidianamente, posto que 85% das mulheres entrevistadas pelo Instituto Datafolha declararam sentir-se inseguras andando pela rua.

"Não, a culpa não é nossa"

A diferença biológica recebe qualificações e valorações conforme os critérios ditados pelo patriarcado que indicam ao macho ignorar a identidade de ser humano do corpo fêmea que está à sua frente. A violência e a ofensividade devem ser características valorizadas no mundo que exige a disputa e a concorrência como traços de uma identidade vitoriosa. O que vale ao macho é vencer, dominar.

Não são estes os valores exigidos ao mundo das mulheres. A compreensão, a parcimônia, a escuta, os sentimentos, os sofrimentos, é que são parâmetros para as relações sociais. Servir, acolher, cuidar, compreender, são as máximas valorizadas pelo patriarcado. É nesta forja que homens e mulheres somos formatadad@s. E a referida pesquisa mostra isso mais uma vez.

Tão naturalizada é a cultura do estupro que a sua força se promove às custas de sua própria negação – dado revelado pela pesquisa do Instituto Datafolha que indica o fato alarmante de um@ entre cada três brasileir@s acreditar que, nos casos de estupro, a responsabilidade é da mulher por “não se dar o respeito”. Há uma clara tendência de negar a cultura do estupro e de torná-la invisível — negando, assim, que o estupro é um artifício de controle disponível no imaginário masculino operacionalizado de várias maneiras com o desfecho, na maioria delas, de eximir os homens de sua responsabilidade.

O primeiro mecanismo utilizado é a culpabilização da vítima: a mulher estuprada teria provocado a sua própria agressão, seja pelo uso de roupas consideradas “inapropriadas”, seja por atitudes “ indecentes” ou pela inadequação de lugares e horários frequentados. Essa inversão da culpa traz à tona a reafirmação dos estereótipos de gênero atribuídos às mulheres: recatadas, do lar, frágeis, dóceis e outros atributos considerados como femininos. Como se agindo de forma contrária, a mulher estivesse autorizando o estupro e o homem a usurpar a autonomia feminina.
São muitas as razões pelas quais a sociedade patriarcal naturaliza e não denuncia este tipo de violência, a cobrindo com um manto da invisibilidade. Mas a razão desse silêncio que, em geral, reside na cultura da violência e da objetificação da mulher, precisa ser rompido!

No momento político que atravessamos, esses dados reforçam a necessidade de lutarmos pela dignidade humana, pela democracia e por um mundo menos desigual onde mulheres e homens seja m respeitad@s nas suas diferenças, onde as mulheres sejam tratadas com o respeito devido a qualquer Ser Humano. O golpe de Estado contra a primeira presidenta mulher do País, eleita com o voto do povo, foi a sinalização mais clara de que os tempos seriam de colocar o Brasil na contramão de suas conquistas relacionadas à equidade de gênero.

Um dos primeiros atos praticados pelo governo ilegítimo foi acabar com a Secretaria de Políticas para as Mulheres – provocando o evidente desmonte do Plano Nacional de Políticas Públicas para as mulheres. E não foi só: aquele era apenas o início de uma onda de retrocessos aparentemente sem fim... Depois veio a reunião com a Confederação do Conselho de Pastores para analisar os pleitos do segmento de combate à “ideologia de gênero” nas escolas com a defesa da família tradicional; a declaração machista do Ministro da Saúde de que os homens cuidavam menos da saúde porque trabalhavam mais do que as mulheres... Ou seja, este governo ilegítimo, machista e misógino, reforça a cultura machista, nos nega políticas públicas e nos responsabiliza pela violência que sofremos.


*Lucia Rincon é professora da PUC-GO, coordenadora Nacional da União Brasileira de Mulheres (UBM)

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